Era uma noite escura, sem luar.
No subúrbio da cidade, podia se ouvir alguns grunhidos, homens bêbados que caminhavam trôpegos e chutavam pedaços de sacolas e copos plásticos, que gritavam. Um grito seco, curto, sem dor. Ao longe se ouvia o barulho rápido dos carros daquela gente desesperada, perdida, correndo atrás do nada, a impressão de que o tempo era infinito. Todos voltando para o aconchego do que chamavam de lar, depois daquela noite igual a todas as outras; um buraco no vazio que não se davam ao trabalho de questionar.
Ás vezes um grito esquecido cortava o silêncio. Um impulso que nascia morto.
Mas havia uma janelinha ali no alto de um prédio já quase nu, a pintura descascada abrigava camadas de sujeira também já esquecidas.
Um isqueiro acendia, e depois apagava. Acendia, apagava. Acendia. Dentro do apartamento, um homem e uma mulher dividiam o silêncio.
Atirado na poltrona, de cueca, ele fitava-a na íris. Ela estava jogada na cama, com a maquiagem borrada e a roupa amassada que escondia seus fartos seios e uma pele áspera.
- É um porre o jeito que você me olha - Ela apagou o isqueiro.
Escorregaram-se pela janela cinco curtos minutos.
- Como ele está? - O homem susurrou, a voz roca se arrastando na garganta, o olhar fugindo.
- Bem.
Mais uma dose de silêncio. O homem se aproximou. Tocou-a na nuca, acariciou os cabelos, suspirou no seu pequeno ouvido, e com os olhos fechados, disse:
- Eu tô te pedindo, vem comigo. Eu sei que você não gosta desse homem! Também sei que ele não sabe te tocar do jeito que eu sei. Nem dizer que te ama, nem te olhar nos olhos...
Ela fechou os olhos rapidamente, respirou como se fosse dizer algo, uma frase, um som, qualquer que fosse aquele resquício que, afinal, acabou no mesmo lugar que começou. Soltou o ar e desviou o olhar.
Ele aumentou o tom de voz.
- Tu não é nada além de covarde! Eu já sabia desde o começo, mas pensei que te esquivasses por medo... Hoje vejo que tens outros motivos. Motivos gananciosos, mesquinhos, nojentos!
- Cala a boca! - ela disse sem titubear - Não pedi a tua opinião. Não preciso dela para encher os meus ouvidos e muito menos para influenciar nas minhas decisões...
O homem rapidamente retrucou.
- Decisões que tu nunca irá tomar! Puta! - Ele engoliu a saliva - Tu prefere levar uma vida amarga, silenciosa, prefere assistir àquilo que tu chamas de marido do que largar o conforto para vir com quem tu ama...
Ela franziu a sobrancelha. Levantou-se e se posicionou na frente do homem já irado. Eles agora estavam frente a frente.
- Quem disse que eu te amo?
- Tu me diz! Me diz com a respiração todas as noites em que nos encontramos aqui, escondidos, quando ignoramos o que está do outro lado da janela...!
- Saiba então que eu não te amo porcaria nenhuma. Amar, onde já se viu... que palavra tola pra um sentimento idiota! Me admira que um homem como tu alimente essas fantasias...
- Um homem como eu? Me diga, então, como é um homem como eu?
Ela preferiu o silêncio.
- Diga! - Ele tinha a respiração veloz, o sangue começava a circular rápido pelos olhos que já estavam avermelhados - Um homem como eu, falido, sem berço, é isso que tu quer dizer? Não posso te dar o conforto que tu tem com esse sujeito miserável de alma, mas não consegue te segurar quando a saudade aperta no peito, o teu olhar não se deixa enganar...
- Para com essas bobagens! Da onde tu tirou isso... Minha respiração? Meu olhar? - Ela riu, maldosa - Se olhe no espelho... É tu quem diz essas verdades sobre ti, e quem sou eu para negá-las então!
- Puta! Mil vezes puta, mulher sem coração! Tu mataria por um luxo, por um mimo... Tu é cada dia mais desprezível ao meu olhar! Vai então, e termina tua vida com aquele grosso, continua escondendo as tuas feridas atrás de maquiagens e roupas...
Ela interrompeu-o, gritando.
- Miserável é tu! Cala a tua boca, eu já disse e repito, dispenso a tua opinião!
- ...E tudo isso pra quê? Tu desperdiça a fortuna do teu marido contigo, para encher os armários, pra encher o ego, e acaba esvaziando o teu coração... Tu mudou tanto nesses dez anos! - disse com desprezo.
Ela novamente encheu o peito para falar, mas acabou esvaziando-o sem palavras. Ela tinha raiva, mas lhe faltavam os argumentos certos; era sempre assim quando era posta em situações nervosas. Mas ainda pensava no que falar.
Ele foi mais rápido:
- Dez anos se passaram, e tu continua querendo os meus braços, os meus beijos, tu quer mais argumentos do que isso? Tu optou pela riqueza ao invés do amor, mas percebeu que não pode viver sem isso que tu diz ser idiota...
- Optei mesmo, homem. Optei! - ela esticou o braço para alcançar sua camisa que estava sob a cama, do avesso - Tu já devia ter entendido isso, faz anos... Prefiro pagar o preço de um marido talvez um pouco desnorteado do que viver uma vida escassa... Vá pro inferno!
Ela já estava com a camisa vestida, e agora enfiava a calça de cetim nas longas pernas.
Ele observou-a, buscando as palavras certas e acompanhando seus gestos. Falou alto, tentando desviar sua atenção para ele.
- Um pouco desnorteado? Além de nojenta tu é burra, anta! Esse homem nunca vai mudar as atitudes... Cinquenta anos teriam sido o bastante para lhe mudar as ideias se fosse possível!
Ele, agitado e indignado, observava-a colocar o casaco e apanhar a bolsa. Ela caminhou até a porta e virou-se, com o coração já disparado.
- Sou, sim, tudo isso que tu disse! E não vou mudar, a minha vida vai ser assim pra sempre. Tu estando nela ou não, pouco muda. Já estou farta dessa tua vontade de idealizar as coisas... Não é assim a vida! Parece criança! Me deixa em paz com a minha, que eu estou muito satisfeita com ela. Sim, estou!
Virou-se e deu o último passo dentro daquele quarto de motel carente de mobília, e bateu a porta o mais forte que pôde.
Dentro do quarto, o homem continuou estático. Quis sair, alcança-la, xinga-la mais, beijá-la, gritar o quanto ela era tola e burra até convencê-la, e depois dizer o quanto a amava. Mas apenas virou-se e sentou na poltrona, tentando se acalmar e visualizando mentalmente o que acabara de acontecer.
Do lado de fora, a mulher desceu as escadas rapidamente, e mesmo sem saber, quis desesperadamente que ele a seguisse e a puxasse pelo braço. Eles olhariam-se nos olhos, naqueles olhos já cansados e com rugas prematuras, e sentiriam amor e ódio ao mesmo tempo. Tanto faz se gritariam, ou se se beijariam; eles estariam juntos. Mas apenas entrou no carro ainda agitada e braba, ligou-o e só depois, finalmente, permitiu ao silêncio a companhia das suas grossas e tristes lágrimas.